A intervenção na Venezuela e as ameaças à Groenlândia não são eventos isolados.
São a aplicação prática da "Doutrina Donroe", que declara os EUA como poder incontestável no Hemisfério Ocidental. Esta política revela uma verdade crua da geopolítica: sem o dissuasor nuclear, nenhum país – do México ao Chile, da Dinamarca à Indonésia – tem defesa real contra a vontade de uma superpotência determinada a impor sua força.
A Indefensabilidade Exposta: O Que a "Doutrina Donroe" de Trump Significa para um Mundo sem Armas Nucleares
O mundo testemunhou, em poucos dias, a transição de uma doutrina geopolítica do papel para a prática bélica. A "Doutrina Donroe" – a fusão do nome de Donald Trump com a Doutrina Monroe de 1823 – deixou de ser retórica. A operação que removeu Nicolás Maduro na Venezuela foi seu batismo de fogo. A mensagem, ecoada pelo Departamento de Estado e pela Casa Branca, é cristalina: "Este é o NOSSO hemisfério" e a "dominação americana nunca mais será questionada".
Este episódio vai muito além da crise venezuelana. Ele expõe o axioma central da geopolítica do poder: a indefensabilidade estratégica da esmagadora maioria dos Estados nacionais. Em um mundo com apenas nove potências nucleares, todos os demais – incluindo todas as nações da América Latina, Europa não-nuclearizada, África e grande parte da Ásia – operam sob um paradoxo. São soberanos no direito, mas profundamente vulneráveis no fato, quando na mira de uma superpotência convencional como os EUA.
A Venezuela foi o primeiro demonstração. A Groenlândia é a prova de conceito expansionista. A Casa Branca não discute se tem o direito sobre o território dinamarquês, mas afirma que ele "deveria fazer parte dos Estados Unidos". A reação europeia é de pavor estratégico, mas também de impotência. Sem o escudo nuclear francês ou britânico, a Dinamarca, assim como o Panamá ou o México, está à mercê da correlação de forças. A ameaça de colapso da OTAN é real precisamente porque a aliança se mostra inútil para proteger um aliado do apetite territorial de seu próprio líder.
A Nova (e Antiga) Divisão do Mundo
A "Doutrina Donroe" é, em essência, a oficialização da divisão do mundo em esferas de influência pelo poder bruto. O Hemisfério Ocidental é declarado zona de dominação exclusiva dos EUA. O subtexto é claro: China, Rússia e outras potências nucleares podem fazer o mesmo em suas respectivas esferas. O que surge não é um mundo multipolar de cooperação, mas um mundo multiesférico de competição, onde as regras são ditadas pelos poderes regionais hegemônicos.
Para o Brasil e seus vizinhos, a lição é amarga. Diplomacias sofisticadas, alianças regionais e discursos na ONU têm valor limitado quando confrontados com uma superpotência que decide agir. A única moeda de troca real na alta geopolítica é o poder de dissuasão. Sem ele, a soberania é, em última análise, uma concessão daqueles que detêm a força.
A "Doutrina Donroe" não criou a indefensabilidade; ela apenas a tornou explícita e operacional. O século XXI, que muitos previram como uma era de soft power e governança global, revela suas raízes mais profundas e duras: uma arena onde, para a maioria, a autonomia depende da benignidade ou do desinteresse dos gigantes.